Quando Deus fala através de uma revelação ou visão, por que muitos duvidam ou mudam de assunto? Entenda a psicologia da fé, o medo do desconhecido e como lidar com os mistérios divinos sem perder a comunhão.
Existe um versículo na Bíblia, em Deuteronômio 29:29, que resume a tensão da existência humana diante do Criador: “As coisas encobertas pertencem ao Senhor, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre”.
Viver a fé é caminhar sobre uma linha tênue entre o que conhecemos e o vasto oceano do que não compreendemos. No entanto, uma das situações mais intrigantes — e comuns — nas igrejas e círculos de fé acontece quando o “céu toca a terra”. Um homem ou mulher de Deus, movido pelo Espírito, entrega uma revelação, compartilha uma visão ou traz uma palavra profética específica.
A reação esperada seria temor, gratidão ou arrependimento. Mas, muitas vezes, vemos o oposto: ceticismo, olhares desviados, risos nervosos ou uma tentativa imediata de mudar de assunto. Por que isso acontece? Por que os mistérios de Deus geram tanto fascínio em alguns e tanta repulsa ou dúvida em outros?
Neste artigo, vamos mergulhar nas profundezas da alma humana para entender as barreiras que nos impedem de abraçar o sobrenatural e como podemos ter um coração mais sensível à voz de Deus.
1. O Choque entre a Lógica Humana e a Soberania Divina
Vivemos em uma era dominada pelo racionalismo. Desde a escola, somos treinados a acreditar apenas no que podemos ver, tocar, medir e provar cientificamente. Construímos caixas mentais onde tudo precisa fazer sentido lógico.
Quando uma revelação espiritual ocorre, ela rompe essa caixa. Ela não pede permissão à nossa lógica.
Quando alguém diz: “Vi o Senhor fazendo isso na sua vida” ou “Deus me mostrou algo sobre o seu futuro”, isso agride o controle que gostamos de ter. A dúvida, muitas vezes, não é uma falta de fé em Deus, mas um mecanismo de defesa da nossa mente. Aceitar o mistério exige humildade para admitir que não estamos no comando e que existe uma realidade invisível operando muito acima do nosso entendimento intelectual.
Para muitos, mudar de assunto é a forma mais rápida de voltar para a “terra firme” da lógica, onde se sentem seguros.
2. O Medo da Exposição: A “Luz” Incomoda
Jesus disse que a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas, porque suas obras eram más. Embora isso se refira ao pecado, o princípio se aplica à vulnerabilidade.
Uma visão ou revelação genuína é como um holofote. Ela ilumina cantos da alma que, muitas vezes, a pessoa prefere manter escondidos.
Imagine a cena: um profeta se aproxima e começa a falar sobre uma mágoa antiga, um pecado secreto ou um chamado que a pessoa está fugindo há anos.
A reação natural da “carne” é a fuga.
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A Negação: “Isso é coisa da cabeça dele.”
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O Desdém: “Lá vem ele com essas misticismos.”
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A Fuga: Mudar de assunto para futebol, clima ou política.
Essa dúvida não nasce da descrença de que Deus pode falar, mas do medo do que Ele vai dizer. Aceitar a revelação implica aceitar que Deus está vendo tudo. E, para quem não está com o coração alinhado, ser visto por Deus pode ser aterrorizante, e não consolador.
3. O Trauma dos “Falsos Profetas”
Precisamos ser honestos e equilibrados: um dos maiores motivos para o ceticismo hoje é o abuso da fé. Infelizmente, existem muitas pessoas mal-intencionadas que usam o nome de Deus para manipular, ganhar dinheiro ou exercer poder sobre os outros.
Muitos cristãos fiéis já foram feridos por “revelações” que nunca se cumpriram, ou por visões que serviam apenas para massagear o ego do profeta.
Quando alguém presencia uma nova revelação, o cérebro ativa um sistema de alerta baseado em traumas passados. A pessoa pensa: “Já vi isso antes, não quero me iludir de novo”. Nesse caso, a dúvida é uma cicatriz.
Se você é a pessoa que entrega a mensagem, é preciso ter empatia e paciência. A confiança no profético precisa ser restaurada com amor, caráter e, principalmente, com o cumprimento da palavra dada, e não imposta com autoridade.
4. A Dificuldade de Discernir o Espiritual
O apóstolo Paulo nos instrui a não desprezar as profecias, mas a julgar todas as coisas e reter o que é bom (1 Tessalonicenses 5:20-21).
O problema é que muitos confundem “julgar/discernir” com “duvidar/cinismo”.
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Discernimento é ouvir, orar e perguntar ao Espírito Santo: “Senhor, isso vem de Ti?”. É uma postura ativa e espiritual.
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Dúvida Cínica é fechar os ouvidos antes mesmo da mensagem ser completa. É uma postura defensiva e carnal.
Muitas pessoas mudam de assunto porque não sabem lidar com o peso do discernimento. É trabalhoso orar sobre uma palavra recebida. É mais fácil descartá-la como “bobagem” e seguir a vida normal do que parar, refletir e, talvez, ter que mudar de atitude baseada naquela revelação.
5. O Mistério como Convite, não como Barreira
Por que Deus permite que Seus mistérios sejam, por vezes, tão difíceis de entender? Por que Ele usa visões enigmáticas ou profetas humanos e falhos?
A resposta reside no relacionamento.
Se Deus entregasse um manual de instruções claro e direto para cada dia da sua vida, você não precisaria de fé, nem de intimidade com Ele. Você apenas seguiria regras.
O mistério nos força a buscar a Deus. Quando não entendemos uma revelação, somos obrigados a dobrar os joelhos e dizer: “Pai, não entendi. Me explica? Fala comigo de novo?”.
A dúvida, se bem canalizada, pode ser o combustível para uma busca mais profunda. Mas o desprezo — o ato de ignorar e mudar de assunto — é o que endurece o coração.
6. Como Lidar com Quem Não Acredita?
Se você é o “homem ou mulher de Deus” que entrega a visão e se sente frustrado quando as pessoas não acreditam, aqui vão alguns conselhos baseados na sabedoria bíblica:
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Não leve para o pessoal: A rejeição não é a você, é à mensagem ou ao processo de Deus na vida daquela pessoa. Lembre-se de Ezequiel e Jeremias; eles profetizaram por anos e poucos ouviram.
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A Semente foi plantada: Uma palavra genuína de Deus nunca volta vazia. Mesmo que a pessoa mude de assunto na hora, aquela palavra ficará ecoando no espírito dela quando ela colocar a cabeça no travesseiro.
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Viva o que você fala: A maior validação de uma visão é a vida de quem a entrega. Se você é íntegro, amoroso e equilibrado, sua voz terá peso espiritual.
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Respeite o Tempo: Jesus sabia muitas coisas, mas disse aos discípulos: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora” (João 16:12). Às vezes, a pessoa simplesmente não está pronta.
Abraçando o Sobrenatural
Os mistérios de Deus não existem para nos confundir, mas para nos fascinar e nos manter humildes. Vivemos em um mundo espiritual real, onde anjos, demônios e o Espírito Santo estão ativos.
Quando nos deparamos com uma manifestação desse mundo — seja uma visão, um sonho ou uma profecia — temos uma escolha. Podemos reagir com o cinismo do mundo, mudando de assunto e nos protegendo em nossa lógica pequena, ou podemos reagir com a reverência de quem sabe que Deus é grande demais para caber em nosso entendimento.
Que possamos ter ouvidos sensíveis. Que, diante da dúvida, escolhamos a oração. E que, diante do mistério, escolhamos a adoração.
Afinal, a fé é a certeza das coisas que não se veem, e a prova das coisas que se esperam. Não deixe que o ceticismo roube o milagre que Deus quer revelar a você.
Gostou desta reflexão?
Os caminhos de Deus são insondáveis e muitas vezes desafiam nossa compreensão. Você já passou por uma experiência onde recebeu uma revelação e teve dificuldade de acreditar? Ou já foi usado por Deus e sentiu a descrença dos outros?
Deixe seu testemunho nos comentários abaixo. Vamos conversar sobre como fortalecer nossa fé em meio aos mistérios divinos.

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